• Marcel Oliveira

O FAUSTO NEGRO (PRÓLOGO NO INFERNO)


ACTO V


O FAUSTO NEGRO


(Prólogo no Inferno)


Tecedeiras a tecer:

Teçamos, teçamos

O pano da vida.

Teçamos, teçamos

Com louca lida.


De negro, de negro

Com pontos dourados,

De negro, de negro

Com breves bordados.


Teçamos a rede

Da vida em tear

Que a morte tem sede

Da rede rasgar.

Teçamos, teçamos

Pra cedo acabar.


Uma voz


Eu sou o Spírito de Alegria,

Minha mortalha minha mão fia,

Fia-a contente de ter que fiar.

Por isso a fia sem a acabar,

Fia de noite, fia de dia,

Fia, fia, fia, fia,

Fia de noite e de dia fia.


Bem sei que a obra é para tristeza,

Mas há o fazê-la que a faz beleza,

Bem sei que a morte é seu fio e a dor

Constante no fiar. Mas fia com amor.

E por isso cumpre-me a minha alegria

Minha mão (...) que fia e fia,

Fia de noite fia de dia,

Fia, fia, fia, fia

Fia de dia e de noite fia.


É o maior horror da alma

Ver claro em pensamento que é profundo

Ver o Terror Supremo! a ambição

De morrer pra não pensar, já não

Por duvidar – mas – oh, maior horror!

Por ver, por ver, por ver!


O animal teme a morte porque vive,

O homem também, e porque a desconhece.

Só a mim me é dado com horror

Temê-la por lhe conhecer a inteira

Extensão e mistério, por medir