• Marcel Oliveira

História de Maria Padilha

Atualizado: 30 de Mai de 2020


Dona Maria Padilla e Dom Pedro I de Castela seguiram juntos para Olmedo, onde se casaram secretamente. Viveram com certa tranquilidade até que os adversários políticos do rei descobriram que ele havia se casado e passaram a exercer grande pressão, obrigando-o a retomar a relação com sua primeira esposa. Dom Pedro, no entanto, preferiu manter Branca de Bourbon bem distante e a mandou para outras cidades. Por fim, a legítima esposa foi envenenada e morreu aos 25 anos.


Em 1361, a peste bubônica assola o reino e, para desespero de Dom Pedro I de Castela, faz de Maria Padilla uma de suas vítimas. A princípio, a amante do rei é sepultada em Astudillo, no convento que ela mesma fundou.


Dizem que o rei nunca se conformou com essa morte prematura e um ano depois declarou, diante de todos os nobres da corte de Sevilha, que sua única e verdadeira esposa era Maria Padilla. Tanto fez, que o Arcebispo de Toledo acabou considerando procedentes as razões que o levaram a abandonar Branca de Bourbon, principalmente pelo conflito com os franceses. A corte também aceitou as declarações do rei.





Foi assim que Maria Padilha sagrou-se como a única esposa de Dom Pedro I de Castela, tornando-se a legítima rainha e exercendo seu poder e influência mesmo depois de morta. Seu corpo foi transportado para a Capela dos Reis, na Catedral de Sevilha, e seu túmulo é ainda hoje local de peregrinação.


Na mesma Sevilha ergue-se o cenário para Carmen, uma cigana que usa seus dons no canto e na dança para seduzir e enfeitiçar os homens. Conseguiu transformar o honesto Don José, um decente cabo do exército, numa pessoa desregrada. A linda cigana, que quando passa arrasta todos os olhares, acaba enfeitiçando o famoso toureiro Escamillo, que se apaixona perdidamente por ela.


O ciumento Don José disputa com Escamillo o amor de Carmen. Ao tentar prever o futuro nas cartas, a cigana é avisada sobre um triste presságio: a morte. Enquanto o toureiro é ovacionado pela multidão, Carmen despreza o amor de Don José e joga violentamente o anel que lhe oferecera. Tomado pela paixão, Don José desfere o golpe fatal e mata sua amada com uma facada na barriga. Percebendo a loucura que fez, cai de joelhos junto ao corpo da mulher de sua vida e chora.


Tanto a ópera de Bizet quanto a história da amante influente do rei de Castela fornecem o arquétipo da mais controvertida entidade dos cultos afro-brasileiros. De acordo com as pesquisas de Reginaldo Prandi, “Maria Padilha, talvez a mais popular pombagira, é considerada espírito de uma mulher muito bonita, branca, sedutora, e que em vida teria sido prostituta grã-fina ou influente cortesã.”


Marlyse Meyer publicou em 1993 o livro Maria Padilha e toda sua quadrilha, contando a história da amante do rei de Castela. “Seguindo uma pista da historiadora Laura Mello e Souza (1986), Meyer vasculha o Romancero General de romances castellanos anteriores ao siglo XVIII, depois documentos da Inquisição, construindo a trajetória de aventuras e feitiçaria de uma tal de Dona Maria Padilha e toda a sua quadrilha, de Montalvan a Beja, de Beja a Angola, de Angola a Recife e de Recife para os terreiros de São Paulo e de todo o Brasil”, explica Prandi.


E acrescenta: “O livro é uma construção literária baseada em fatos documentais no que diz respeito à personagem histórica ibérica e em concepções míticas sobre a Padilha afro-brasileira. Evidentemente não encontra provas, e nem pretende encontrá-las, de que uma é a outra. Talvez um avatar imaginário, isto sim. E que pode, quem sabe, vir a ser, um dia, incorporado à mitologia umbandista.”


De fato, não se sabe se Maria Padilha é o espírito da amante do rei de Castela que se manifesta nos terreiros de umbanda e candomblé, e pouco importa saber. Tanto os fatos históricos da corte de Sevilha quanto a ficção da ópera fornecem a imagem de uma mulher forte, influente, sedutora, transgressora, feiticeira.


A pombagira é uma mulher livre.


Livre de convenções e padrões sociais, livre da moral e da ética castradoras, livre do domínio dos homens, livre pra fazer o que bem quiser. Como ilustra a cantiga:


Ela diz que vem de longe

Pra dizer quem ela é

É uma velha feiticeira

Que trabalha como quer


“Pombagiras são espíritos de mulheres, cada uma com sua biografia mítica: histórias de sexo, dor, desventura, infidelidade, transgressão social, crime”, afirma Prandi. Muitos terreiros de candomblé incluíram o culto às pombagiras por força de adeptos convertidos da umbanda. Mas na Bahia, onde a umbanda não tem muita expressão, as “Padilhas” também estão presentes.


Nos cultos afro-brasileiros de Pernambuco e de outros estados do Norte-Nordeste, pode-se notar a presença de “mestras” com o mesmo arquétipo das pombagiras. Nas macumbas cariocas, elas são ainda mais populares e dividem espaço com “malandras e malandros”, entidades muito próximas do contexto sociocultural dos morros e favelas.


A própria Maria Padilla teve seu amor de volta em três dias. Essa passagem serve pra expressar um dos motivos que tornaram as pombagiras tão populares: são elas que resolvem rapidamente todas as questões relacionadas ao amor.


Eu vim aqui pra falar com a pombagira

Para fazer meu amor voltar pra mim

Eu disse a ela que a saudade me apavora

Eu pergunto a todo mundo aonde é que ela mora


Mas as pombagiras já fazem parte do imaginário brasileiro. Ângela Maria fez muito sucesso com a música Moça Bonita, que até hoje é cantada nos terreiros. Glória Perez escreveu a novela Carmem para a extinta TV Manchete, inspirada na ópera de Bizet, cujas cenas protagonizadas por Lucélia Santos e Neuza Borges ainda são lembradas mais de trinta anos depois.


Aquela que bebe, que fuma, que fala palavrão, que anda pela madrugada. Ousada, desafiadora, ela canta na sua chegada: Arreda homem que aí vem mulher. Ela comanda, ela liberta, ela vive. Conhece o prazer e a dor das paixões. Teve todos os homens a seus pés, amou e foi amada, não se curvou, não se deixou subjugar. Para os que falam dela um recado:

Disseram que eu não valho nada

Que eu ando pelas ruas

À meia-noite, eu vou dar risada